Jornalismo barato: somos vítimas ou incentivadores ?

7 jan

Não bastasse já a televisão que nos bombardeia com notícias, digamos, inúteis, agora reina na Internet o jornalismo barato, sensacionalista, e o achismo. Mas somos nós, meros leitores de blogs inúteis como esse, vítimas dessa “má-fase” jornalística, ou os maiores incentivadores ?

Minha página inicial no Firefox ( Internet Explorer eu não uso faz MUITOS anos) é o UOL. Não porque eu seja um admirador do site, ou porque quero justificar o valor pago mensalmente pelo provedor de serviço de e-mail, mas porque ali na capa do site (ou home), estão todas as notícias nacionais e internacionais relevantes que acontecem nas últimas horas/minutos. E apenas lendo as manchetes e uma ou outro notícia relevante a fundo, você consegue se manter mais informado do que assistinado ao aclamado Jornal Nacional.

Porém de uns tempos pra cá, noto cada vez mais a presença de notícias absurdamente inúteis e sem sentido que marcam presença na capa do site. E com absolutamente todos os sites de notícias, o mesmo vem acontecendo. Notícias do tipo “Suzana Vieira vai a praia”, “Cão é resgatado de lago” são cada vez mais comuns. Enquanto escrevo esse post, notícias da relevância de “Modelo paulistana Talula está no BBB11; veja fotos” e “Ana Hickmann revela como perdeu 8kg em um mês” estão lá.

São notícias relevantes, que vão mudar a sua vida? Claro que não. Mas agora que é possível comentar nas notícias usando o Facebook, chovem comentários de intelectuais formados em Harvard, dizendo a mesma ladainha de sempre: “nossa essa notícia mudou minha vida”, “ao invés de se preocuparem com o corpo, deviam se preocupar em mudar a realidade do Brasil”. Só pra citar alguns. Quando leio esses comentários, o que consigo pensar, certamente também já passou pela sua cabeça: o cara é tão ocupado, mais tão ocupado em mudar o mundo, melhorar a sua vida, e salvar a humanidade do cataclisma ambiental iminente (que merece um post em outra oportunidade), que com certeza ele teve um tempinho para: entrar na net, LER A NOTÍCIA INTEIRA, e ainda perder tempo pra comentar. Então, porque ao invés de ler essa notícia,o intelectual não foi a seção de economia e postou a resolução de como brecar a derrocada do dólar?

O que pega é o seguinte: no meio de dezenas de notícias na homepage, você tem a opção de ler apenas o título de notícias efêmereas e inúteis, ou abrir o link, ler a notícia e ainda comentar. Comentar nesse tipo de notícia é pecado mortal? Não. Mas demonstra que você só alimenta o jornalismo barato.

Sou do tempo que jornalismo era descobrir esquemas milionários de desvio de dinheiro, venda de cargos públicos, quem era o dono da parada, ou seja: era o jornalismo investigativo. E quando informavam algo, vinha sempre uma explicação de como, onde, quando e porque tal fato ocorreu. Não me lembro de assistir/ver/ler muitas notícias sobre famosos. Hoje temos até o notável TV Fama que angaria uma grande audiência, noticiando os fatos mais corriqueiros e absolutamente dispensáveis sobre a vida de pseudo-celebridades.

E porque programas como esse existem? Como notícias inúteis pipocam cada vez na nossa frente? Por essencialmente 2 motivos: por causa da velocidade da notícia na internet, e por causa do público crescente, ocioso e ávido por esse tipo de notícia. Vamos discorrer sobre esses 2 aspectos:

1) A velocidade da informção na Internet.

Abra qualquer tópico no seu Orkut. Com certeza, você encontrará comentários do tipo “old”, “tava em coma fdp?”, “volte pra sua pokebola” e afins. Ou seja, a impressão que fica é que na internet TUDO É OLD.

old Claro que você frequenta blogs, senão não estaria aqui. E os blogs são grandes propagadores de vídeos, imagens, memes e virais. No mesmo minuto em que você viu alguma dessas coisas na internet, abre-se uma fenda no tempo-espaço, e sempre, eu disse SEMPRE, que você ver/assistir aquilo de novo, na sua mente virá uma palavra em letras garrafis, negrito e sublinhado: OLD. Acontece que nem todos são tão desocupados assim pra ficar o dia inteiro na internet vendo coisas engraçadinhas. O problema é: em quanto tempo uma coisa vira old na internet? Segundo minha percepção: a 2 anos atrás, 1 semana era tolerável, em 2010 esse tempo passou para dias, e hoje, exatamente na virada do ano (ok, talvez nem tão exatamente assim), de um dia pra outro, já é old. Muito old. Extramamente old. Em questão de horas, já virou old.

Então pensem agora: com que velocidade os jornalistas tem que publicar notícias pra não perder o timing dela? Antes era de um dia pra outro com jornais, ou quinzenalmente/mensalmente com revistas. Hoje, é questão de horas. E acreditem, não acontece tanta coisa interessante assim no mundo. E é daí que vem as notícias babacas. O jornalista tem a missão de fazer 3 notícias por dia. E foda-se sobre o que é essa notícia. Vale qualquer coisa. Até dizer que Ana Maria Braga leva sua cachorrinha pra tosar o pêlo. A velocidade da internet criou esse vão, e ainda mais, facilita a divulgação de notícias-fofocas, pois botou na internet, pimba: em questão de minutos, todo mundo sabe.  Ou seja, nos tornamos reféns da velocidade da inernet, que ao mesmo tempo que tráz até nós todas as últimas notícias do mundo, cria um vão entre uma notícia relevante e outra, que tem de ser preenchido com algo. Neste caso, notícias inúteis.

 

2) O Público Alvo

 blog_velhas

Este é você. Sim, você mesmo. Você que clicou na notícia babaca, e ainda comentou. Seu comentário será aprovado, e dificilmente lido. Mas seu clique, aaaa sim, seu inofensivo clique em uma hora de ócio, se transforma em um gráfico, que na próxima reunião será tratado da seguinte forma: “Puta que pariu! Essa notícia inútil aí teve milhares de cliques! Muitos, mais muitos mais do que aquela matéria enorme sobre a crise política nas duas Coréias que pode resultar em uma Terceira Guerra Mundial! Olha o retorno gente! Vamo que vamo fabrica notícias sobre famosos, dietas e coisas do tipo! É ISSO QUE O POVO QUER!”

Sim caros leitores desse (já) enorme texto. É nisso que o jornalismo é pautado: o retorno. Como notícias frívolas são muito fáceis de escrever, e tem um grande e imediato retorno, nada me espanta que cada vez mais elas tem ganho espaço nas redes inernéticas de notícias. E querendo ou não, é isso mesmo o que o povo quer. Mas….

 

0Simples: QUEM não gostaria de ser famoso, passar o dia na praia, ir pro estúdio, falar 3/4 palavrinhas suspirando e ganhar muita grana e fama por isso? Essa é a vida que todo mundo queria! Ou vai dizer que se estressar o dia todo em um escritório pra ganhar seus mil e poucos reais por mês é a vida que você sempre sonhou ? Todo mundo quer ter muita grana, ter o corpo perfeito/malhado/definido, passar o dia na praia ou em algum lugar legal. E quando achamos alguma pessoa que faz isso, que consegue chegar no lugar por nós idealizado, muita, mais muita gente mesmo, quer saber o que essas pessoas fazem, qual a sua rotina, o que (e mais importante) quem anda pegando, etc. . E sentir, lá no seu íntimo e interior, aquela inveja por não levar a vida que você tanto sonha. Ver aquela mulher que tem o corpo malhado, e você aí procurando dietas milagrosas pra perder aquelas gordurinhas acumuladas.

Enfim, o ser humano é efêmero, gosta de coisas superficias e banais, pois não precisa pensar pra entender isso. Ou qual o grau de dificuldade do entendimento do “Ronaldo passa férias em iate de bilionário russo”? Agora, pra ler algo de que você precise de embassamento e reflexão… ah não, é muito chato, deixa pra lá.

E aos que criticam os repórteres por noticiarem coisas inúteis, pensem bem: se apenas se noticiasse coisas realmente interessantes, aquela notícia que você tanto fala que mudará a sua  vida, quantas notícias teríamos por dia? Talvez tem dia que ia passar em branco hein… Notícias que mudam o mundo não acontecem todo dia. Aliás, raramente ocorrem. A última que me lembro foi do início da provocação entre as Coréias, o que PODE vir a mudar o mundo. No mas, coisas que de tão comum que até se tornam normais, pipocam todo dia: aquele acidente com vítima fatal, assaltos, sequestros, as contratações do mercado da bola, enfim, coisas que se você for ver, já são banais.

 

Você, leitor, é quem tem o mouse na mão, quem escolhe onde clica, quem escolhe o que consome e o que quer ver. Então, antes de reclamar do que você está vendo por aí, pense bem no que anda fazendo. É como todo BBB: quando você fala com o pessoal, ninguém vê, todo mundo odeia. Mas sempre tem milhões de votos na eliminação, e os sites/blogs sobre BBB sempre lotam durante o programa.

 

Nota mental: fazer um post sobre BBB, mesmo que eu não assista.

 

É isso aí rapaziada, e não esqueça de deixar o seu comentário, ele é importante!

9 Respostas to “Jornalismo barato: somos vítimas ou incentivadores ?”

  1. Arlyz 13 de janeiro de 2011 às 11:43 AM #

    Atenção à sua escrita: “mais” = adicionar, somar; “mas” = porém, contudo. Corrija seu texto. Parabéns pela matéria.

    • SPOOK 13 de janeiro de 2011 às 12:10 PM #

      Valeu pela dica amigo! Tenho o péssimo hábito de não corrigir meus textos. Volte sempre!

      • Eduardo 13 de janeiro de 2011 às 1:49 PM #

        Mesmo com alguns erros(bem pequenos por sinal) o post ficou impecável, parabéns e continue escrevendo textos como esse, compartilho da mesma opinião!

  2. MAMACO 13 de janeiro de 2011 às 12:32 PM #

    Desde o comeco do seu texto, ja estava eu, culpando a velocidade da internet, voce expressou corretamente minha ideia, que nao importa o conteudo, o importante mesmo é a atualização do site, blog e etc. Se nao acompanhar essa velocidade ninguem acessará, esse é o preço. paciencia. mas essa campanha de só clicar em noticias relevantes, ajudaria a dar sobrevida ao jornalismo investigativo.
    parabens abraco.

  3. Fernanda 13 de janeiro de 2011 às 10:26 PM #

    Quando li teu texto percebi que fazia um tempinho que eu não lia algo interessante na net, talvez por preguiça de procurar um blog legal em meio a tantos inúteis, talvez só por preguiça de procurar mesmo, as vezes nos entregamos ao ócio e quando “acordamos” nos dá um pouquinho de vergonha!!
    Mas o que quero dizer é que penso o mesmo que tu, e conheço pessoas como as descritas acima, que acham mais fácil assitir/ler qualquer porcaria na tv/internet, mesmo reclamando, do que procurar algo de seu interesse ou fazer algo mais interessante, ler um livro, se exercitar, conversar. A internet nos deixa mais passivos quanto à busca de notícias e informações.
    É a facilidade e a praticidade que deixa nossa vida muito mais… ociosa!!

  4. Marcelo 13 de janeiro de 2011 às 11:08 PM #

    Eu li um pedaço pois fiquei com preguiça de ler tudo. Eu consigo imaginar tudo o que viria.

    De fato o embasamento está coberto de razão.

    Um amigo meu levantou uma outra coisa que acontece. Os crimes em Belo Horizonte (minha cidade) cairam quase 20% nos últimos 10 anos. Mas a exposição na mídia cresceu 600% neste mesmo tempo.

  5. ivo 13 de janeiro de 2011 às 11:49 PM #

    Dentro do que foi comentado,lembrei de um comentario que acho ser relevante.
    ¨A quantidade de informaçoes esplodiu porem a qualidade implodiu ¨.

    • mayrafree 15 de janeiro de 2011 às 7:34 AM #

      Parabéns pela coerencia, quanto aos erros podemos dar as mãos e sair pulando, faço o mesmo.
      Kra é uma equação muito simples; informação rápida + vantagem sobre a concorrencia = Jornalismo barato * alienação em massa = BBB

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